122 - Intransferível
Era um dia como outro qualquer para todos nós, exceto para Gabi. Ela estava mal-humorada e reclamando sem parar. Eu não sabia ainda o que ela sentia. Não sabia se era algo tendendo para a dor ou simplesmente uma espécie de agonia irritante do tipo causado pela audição de músicas caipiras. Ela também não ajudava muito com as suas indicações codificadas. Certamente eu sabia que ela estava sentindo algo. E isso doía também em mim pela falta de conhecimento sobre o que se passava do seu lado.
Ela chegou ao meu encontro com o dedinho no ouvido, sacolejando-o de um lado para o outro, de uma forma de dar dó, e foi perguntando:
No seu mundinho, ainda pouco desvendado para ela, ela não sabia ainda que as dores e sensações são individuais, cada qual com a sua dor, cada um com a sua sina, "cada um no seu quadrado..." Para desespero dos pais as dores dos filhos são intransferíveis.
Tarciso Oliveira |