Dossiê Gabi 2009

067 - Dinossauros


Era um sábado e, em detrimento do feriadão, o supermercado estava completamente tomado por uma turba que não se intimidava em esperar em longas filas para abarrotar suas geladeiras de gêneros comestíveis. A situação estava tão apavorante que cheguei a pensar que o fim dos tempos fora anunciado no Jornal Nacional do dia anterior enquanto eu estava tomando umas cervejas.

 

Não era o fim do mundo, o que pude imediatamente constatar pela tranqüilidade de alguns clientes anormais daquele estabelecimento: eles sorriam, mesmo vendo dez carrinhos entupidos de compras à sua frente. Essa gente é feliz, pensei com meus neurônios sobressalentes que não estavam, naquele momento, querendo estrangular o cara que sorriu pra mim e enfiou mais um carrinho superlotado de supérfluos à minha frente com a desculpa que pertencia a ele também, sua esposa estava verificando o que faltava nas compras enquanto ele ficava ali, guardando o lugar na fila. Brasileiro tem disso! Não quero bancar o certinho, mas detesto ser desonesto, sempre! Sou contra qualquer procedimento de se levar vantagem a frentes de outros. Sei que a vantagem é bem vinda, e muitas vezes por influência de outros acabei por ser beneficiado em alguma situação. Mas eu, sozinho, jamais faria atitude semelhante. Sou um daqueles idiotas que acredita na possibilidade de um mundo melhor.

 

Lá, na fila, eu e Gabi, esperando os dez carrinhos, nos divertimos bastante, por mais incrível que possa parecer. Ela fez test-drive em tudo quanto era brinquedo que estava ao nosso redor. Deixou os mais próximos impressionados pelo fato de não querer levar nenhum deles para casa. O último brinquedo era um daqueles dinos que as crianças adoram, mais precisamente, o espinossauro, que foi o maior dinossauro carnívoro que já existiu, medindo em torno de 6 metros de altura por 15 a 18 metros de comprimento e pesando entre 6 e 9 toneladas.
Gabi brincou à beça com o bicho e, por fim, para riso dos mais próximos disse:
— Papai, aqui não tem dinossauro de menina?
— Como assim — perguntei, afinal não havia entendido—, como é dinossauro de menina?
E ela?
— Dinossauro cor-de-rosa, né?

 

 


Tarciso Oliveira
02/05/2009

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