Dossiê Gabi 2009

076 - Neve


Prometi a Gabi, não lembro se já comentei por aqui, em algum texto, que faríamos uma farra no mezanino do prédio assim que caísse um pé d’água daqueles de procurar Noé na esquina. A promessa era de tomarmos um banho de chuva torrencial, tirarmos umas fotos, nos enxugarmos e voltarmos pra casa. Tudo isso escondido da mãe, claro.

 

Gabi não se esqueceu da promessa, e eu também não, mas ela vivia me cobrando a sua realização a cada chuvisco que caia. Sempre tentava explicar-lhe, em vão, a diferença entre chuva e toró. Simplesmente não adiantava, ela queria o banho de chuva prometido. Já decidi que não faço mais promessa para ela a qual não possa cumprir em curto prazo.

 

Naquele dia, mais uma vez uma chuva fina de início de inverso começara a cair. Ao perceber, ela me fez o convite para descermos ao mezanino. Dei a mesma resposta que ela já estava bastante acostumada, tentando fazer com que ela entendesse: só valeria a pena escutar reclamação da sua mãe quando tomássemos um banho daqueles memoráveis.

 

Ela aceitou meu argumento, mas mudou de idéia em menos de um minuto:
— Papai, e quando é que vai cair neve?
Pronto! O bicho pegou, pensei comigo mesmo. Mas respondi com tranqüilidade:
— Aqui não cai neve não, Bibi.
— E onde cai — perguntou ela, antes que eu pudesse concluir o meu pensamento.
— Lá nos Estados Unidos cai. Um dia quando você for para lá você vai ver a neve.
— Por que a gente não vai lá no final de semana? — sugeriu ela, como quem sugere ir ao barzinho da esquina.

 

 


Tarciso Oliveira
25/05/2009

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